sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Sandrinho, Santinho



O documentário de José Padilha, conta a historia de um Sandro que se torna bandido após interpéries da vida, um menino que sofre com a morte da mãe e um pai que de tão relevante não chega a ser mencionado. A narração do documentário é brilhante e mostra com relevante imparcialidade a personagem.

O filme de Bruno Barreto não. A narrativa é extremamente lenta e isso em si não constitui um problema, já a construção da personagem Sandro sim. É muito caricata, um pobre menino, com uma pobre infância, com um pobre futuro em um pobre Brasil.
Um belo dia ele sai da casa da tia, vai conhecer Copacabana, o dinheiro acaba, não tem como pagar a passagem e ele não volta mais. Se por um lado isso deixa um vácuo no telespectador boquiaberto ao pensar “Como assim? Deve ser tão difícil assim voltar para uma favela no Rio? Ou ele não queria voltar? Se não, porque?” Por outro, reforça a ideia, já esboçada no documentário, que Sandro tinha conflitos psicológicos que independiam de sua condição social, apenas foram agravados por ela.

O mais alarmante é que na construção do filme Sandro ganha o estereotipo de bonzinho, e desculpe Bruno Barreto, mas quanto o assunto é construção de estereótipos ele simplesmente não sabe parar. Aquela velha historia, mas infalível, do garoto bonzinho que foi determinado marginal pelo meio, pela nossa sociedade vil e consumista terceiromundista. Sendo assim, Sandrinho é perdoado por qualquer atrocidade, até pelo sequestro de um ônibus.

Tudo isso porque o telespectador, preso aquela narrativa, se esquece que cada uma das personagens do filme também tem uma historia, de dores, alegrias e de vitimação devido a condição de nosso pais. O sofrimento implicado por ter nascido no Brasil não pode ser considerado factor de redenção nem para o Sandro nem para ninguém.

Lembrando de Tropa de Elite, outra obra de Padilha, que só aconteceu, ou melhor que foi concebida, a partir do documentário Ônibus 174. O personagem olimpiano, por assim dizer, é o Capitão Nascimento que entra na favela e estoura um tanto de Sandrinho, que com certeza também tinham uma historia, que, contada de maneira correta, redimiriam até mesmo Napoleão Bonaparte. Note que um é o oposto do outro, mas ambos são mártires. Enquanto Sandro é a vitima de uma sociedade, Nascimento (o capitão, já que tem o mesmo sobrenome) se vitimiza pela sociedade, abrindo mão de sua sanidade e de sua vida pessoal.

A magia do cinema tem essa capacidade, diante da tela, com a cor certa, a luz certa, a trilha certa, e enfim, mas não por fim, com o roteiro certo, qualquer um se redime. Tanto o Nascimento assassino feroz e implacável, que abdica de sua humanidade para salvar a humanidade. Quanto o Nascimento violento e vil, há quem nunca foi oferecida a humanidade. Por isso aguarde, em alguns anos poderemos apreciar a historia do santo Lindemberg, enquanto o papel da imprensa na cobertura destes dois casos passará desapercebida. A final de contas com a mesma mão em que ela tira ela dá.